História do Desenvolvimento – Ford Capri

 

The car you always promised yourself… – Foi este o slogan que eternizou este icónico automóvel

A indústria automóvel atravessou uma época liberal nos anos 60. Não havia problemas no fornecimento de combustível e o seu preço era baixo, estando os americanos a tirar partido desta situação, oferecendo ao mercado uma vasta gama de V8s à escolha. Mesmo os carros de gama mais baixa eram dotados de motores de seis cilindros, sendo estes de grandes dimensões para os standards europeus. O carro que mais enfatizava esta atracção por carros mais musculados por parte do publico Americano era o Ford Mustang – uma lenda desportiva desenhada para os jovens solteiros. Originalmente baseado no Ford Falcon, o primeiro Mustang saiu das linhas de produção em Março de 1964, directamente para a aclamação do público.

Poucas semanas após o seu lançamento, o Mustang já tinha gerado enormes listas de espera, tendo-se tornado no novo carro de culto para uma nova geração. Em 18 meses, foi de zero a um milhão de vendas, tendo assim nascido a lenda. Quando o Mustang estava a todo o gás na América, a Ford europeia começou a tentar replicar a receita no seu continente – a criação de um “Pony Car” a partir de uma das suas berlinas já implementadas no mercado de larga escala.

O desenvolvimento do Mustang europeu veio sob o nome de código “Colt” em 1964 – uma referência ao papel deste carro como o “Pony Car” bebé – e foi inicialmente uma tarefa designada à equipa de engenharia de Dagenham. À medida que o projecto avançou, a crescente cooperação com a equipa de engenharia e design da Ford em Colónia fez com que o Capri fosse o segundo Ford Pan-Europeu, após o Escort.

Nos finais de 1966 era este o seu aspecto. As características janelas laterais traseiras semi-circulares foram uma mudança de última hora… (Foto: Andrew Elphick collection)

Na moda típica da Ford, o desenvolvimento foi uma operação rápida e eficiente, apesar de ser necessária uma mudança estilística de última hora para incorporar a linha dos vidros traseiros em forma de ferradura, como resposta a comentários desfavoráveis de clientes que o avaliaram. A verdade é que, neste caso, os clientes tinham toda a razão e essa mesma linha tornou-se num elemento chave e característico do Capri, que permaneceu até ao fim da produção do modelo.

Apesar das declarações da revista CAR de que o Capri era pouco mais que um “Cortina em sapatilhas de corrida”, o novo carro tinha uma plataforma feita à medida e desenvolvida no Reino Unido que reunia os melhores componentes do Escort e do seu irmão de maiores dimensões, o Corsair. A escolha de motorizações dependia de onde o carro seria vendido:

  • No Reino Unido, estavam disponíveis as versões 1.3 ou 1.6 do já veterano motor “Kent”, a par do V4 de dois litros e do excelente “Essex” V6 de 3 litros.
  • As versões alemãs usavam os seus próprios motores V4 e V6, o primeiro nas variantes 1.3, 1.5 e 1.7 e o segundo em 2.0 e 2.3. Não se pode dizer que havia pouca escolha neste aspecto.

Tendo em conta que se tratava de um carro desportivo, a Ford decidiu lançar o seu novo automóvel vitalmente importante nas profundezas do Inverno, na Bélgica. O salão automóvel de Bruxelas poderia não parecer o local mais glamoroso para se lançar o carro, mas apesar do frio o Inverno, em 1969 o Capri conseguiu aquecer bem a imprensa.

Os primeiros Capris eram bem agressivos, e a estratégia de marketing passava por tornar notória essa característica.

A Ford teria adorado utilizar o nome Colt para o seu novo desportivo, mas a Mitsubishi antecipou-se, dando o trabalho adicional ao departamento de marketing de procurar nas gavetas de nomes defuntos da marca por um novo nome. O que surgiu foi o nome Capri, proveniente de um modelo coupé que esteve pouco tempo em produção, entre 1961 e 1963.

As vendas começaram em Fevereiro de 1969, e rapidamente a Ford encontrou-se na feliz posição de ter outro modelo bem sucedido em mãos, graças a uma publicidade bem pensada que visava atrair jovens casais trabalhadores aos quais eram fornecidos carros pela empresa. Se a intensão fosse puramete replicar o sucesso norte americano do Mustang na Europa, rapidamente se tornou claro que a Ford sucedeu nos seus objectivos. Sendo uma junção Pan-Europeia, o Capri estava a sair das linhas de produção em Dagenham e Halewood no Reino Unido, Genk na Bélgica (por um curto espaço de tempo) e nas fábricas de Saarlouis e Colónia na Alemanha.

As marcas rivais já não precisavam de convencer o mercado que Coupes de quatro lugares e acessíveis ao público eram o caminho a seguir pelo que rapidamente se lançaram nas suas próprias alternativas. Os maiores esforços da Chrysler e da BL nunca atingiram as linhas de produção (o R429 e o Condor, respectivamente), se bem que tenha aparecido o Marina fastback de duas portas… De resto, os concorrentes fizeram as suas jogadas – e graças ao Capri, vieram ao mundo modelos como o Opel Manta, Renault 15/17 e o Volkwsagen Scirocco.

O impacto do Capri no público e na cultura popular como um todo foi ainda maior que na indústria onde surgiu e que estava adormecida. Os mestres de marketing da Ford supuseram correctamente que assim que os compradores se tornassem cada vez mais afluentes – com bastantes carros a ser comprados por empresas no Reino unido e oferecidos como benefícios de inflacção (e provas de impostos). Criaram vários anúncios apelativos, contendo o Capri em todos os tipos de localizações exóticas, e adicionando o slogan inesquecível: “The car you always promised yourself…”.

Ao supor que os gerentes de classe média casados e com filhos gostavam da imagem glamorosa do Capri, e querendo desesperadamente identificar-se com o estilo de vida dos mais jovens e livres solteiros resultou nesta estratégia mais apelativa à emoção.

Um dos melhores aspectos do Capri não era tanto sobre a sua condução, ou mesmo a sua aparência, mas sim o seu preço acessível. Quando foi lançado no Reino Unido, a versão de entrada de gama estava nas muito razoáveis £890 – cerca de menos £100 que outro dos grandes lançamentos do mesmo ano, o Austin Maxi 1500. E isso era uma grande diferença quando era possível comprar uma boa casa na agradável zona de Essex por £6000…

Posto isto, o Capri 1.3 era um pouco como uma ovelha em pele de lobo, com indo dos 0-100km/h em cerca de 18.8s, e uma velocidade máxima de aproximadamente 135km/h. Mas nada disso interessava com o seu aspecto, e pela forma como fazia sentir o seu condutor. Ainda assim, quem testou o Capri gostou, sendo que a normalmente agressiva revista Autocar proclamou o 1600GT XLR como o “melhor carro que a Ford alguma vez produziu”. E apesar de considerarmos o Capri um pouco medieval nos dias de hoje, o seu comportamento em estrada era algo de especial: “Em curvas, não há nada como este Ford. É bastante neutro e em alguns aspectos assemelha-se a um carro de tracção às quatro rodas”.

Faz-nos questionar sobre quantos donos de GT40 iriam estar de acordo com este sentimento.

Originalmente, o 2.0 V4 estava no topo da gama do Capri, mas estava somente a aquecer o lugar para algo maior. Pelo fim de 1969, a versão de 3 litros estaria a sair, que viria um novo modelo a seguir em termos de performance para os carros de preço acessível. Ao utilizar o motor “Essex” de 1994cc e 138cv na carroçaria leve do Ford Capri, o já de si elegante modelo tornou-se numa genuína pechincha de capacidades desportivas. Por pouco mais de £1000, tinha-se uma velocidade máxima de aproximadamente 200km/h e 0-100 em menos de 10 segundos – em 1970, era necessário gastar consideravelmente mais para se chegar a números comparáveis noutros automóveis.

O Ford Capri RS2600 nasceu puramente para competir.

Mas se o 3000 GT não era rápido o suficiente para as pessoas, então o RS2600 seria a escolha a tomar. Com injecção de combustível da Kugelfischer e 150cv bem musculados de potência, este modelo especial esteve em oferta aos clientes como edição limitada de modo a tornar possíveis as actividades da Ford no Grupo 2 do European Touring Car Championship. O RS2600 agarrava-se à estrada como um puro sangue de competição graças à sua suspensão modificada, e era extremamente rápido devido ao aumento de potência e à caixa de relação curta. A Ford nunca se deixou relaxar nos seus triunfos competitivos, e veio a transformar o RS2600 no fenomenal RS3100- Apesar de não ser mais potente que o seu predecessor, era ainda mais especial…

O Capri veio a tornar-se num dos mais bem sucedidos Coupes desportivos alguma vez construídos sendo que, em 1973, já tinha sido atingida a marca de um milhão de unidades. Apesar do grande sucesso, a Ford continuou a desenvolver o Capri de modo a mantê-lo na frente da concorrência. Em 1972 recebeu melhorias na suspensão e um novo interior, sendo ao mesmo tempo os motores V4 e os “Kent” substituídos pelos motores “Pinto” de árvore de cames à cabeça, que também eram utilizados nos Estados Unidos.

Em Fevereiro de 1974 foi introduzido o Capri Mk2. Depois de 1.2 milhões de carros vendidos, e com os ânimos após 1973 algo em baixo com o surgimento da crise petrolífera, a Ford parecia ter amenizado o glamour do Capri na versão Mk2, tornando-o também bastante mais versátil com a adição de uma traseira “hatchback”e banco traseiro rebatível dividido. Desta forma, para todos os que diziam que o Fiesta foi o primeiro hatchback económico da Ford, aprsentamos o Ford Capri Mk2 1.3L.

O novo carro continuou a cimentar os sucessos do modelo original, mas muitos puristas achavam que se tinha tornado demasiado “sensível”. Talvez tenham sido os farós de grande dimensão e menos agressivos, desenhados por Peter Stevens, ou talvez tenha sido pelo facto de agora se poder comprar um Capri L, GL ou Ghia – tal como nos Cortina ou qualquer outro Ford da altura. A verdade é que as vendas cairam com o novo carro, e apesar do 3000S, Ghia e edição especial JPS terem adicionado a bastante precisa adição de testosterona, era claro que ainda não seria o suficiente.

 

 

O Capri amadurece: as alterações estilísticas aplicadas ao modelo anterior Mk2 tornaram o MkIII bastante mais apelativo.

 

O último – e alguns dizem, o melhor – Capri veio em 1977, e com o mínimo de esforço por parte da Ford, tendo sido basicamente corrigidos todos os pontos negativos do Mk2. Designado por Project Carla, o carro de cara lavada tinha uma aparência mais agressiva, provando que o departamento de design da Ford não tinha perdido o seu toque mágico. Torna-se difícil de acreditar que, em termos estilísticos, as únicas diferenças relevantes entre o Mk2 e o Mk3 eram uma nova linha do capôt, umas molduras trabalhadas nas luzes traseiras, e pára-choques envolventes.

O Capri tornou-se novamente na escolha predilecta do jovem executivo, e as verões “S” fizeram o necessário para impressionar potenciais compradores que de outra forma estariam tentados a comprar um Manta. A versão de 3 litros permaneceu a pechincha desportiva da década, sem capacidade de resposta dos rivais – e apesar do motor Essex começar a ser visto como algo antiquado, não se podia negar que continuava a dar cartas.

Porém, o tempo não estava a ser generoso para o Capri. Nos anos 80 os compradores começavam a ver o Capri como um género de uma ressaca de uma era passada. Porém o Capri não cedeu sem dar luta – apesar da chegada de uma nova geração de hot hatchbacks exponenciada pelo Golf GTI e o Escort XR3. A Ford descontinuou o motor Essex em 1981, substituindo-o pelo V6 “Cologne” – criando um dos nomes mais estilosos no mundo – o Capri Injection…

Debitando 160cv e fazendo 7.7 segundos dos 0-100km/h, o Capri estava novamente apto para novos confrontos, e dar aos recém-chegados da Alemanha e Itália um nariz ensaguentado… Porém, na realidade, era o fim da linha para o Capri. O desenolvimento final foi pouco mais que um exercício de marketing, com uma sequência de edições especiais na sua velhice – podia-se comprar um Calypso, um Cabaret, um Brooklands. Mas na era das centralinas e de quadrantes digitais, o Pony Car Europeu do tio Henry passou a sua data de validade.

Em 1987, o tempo chegou para um dos carros mais marcantes para a sua geração, e após uma produção de quase dois milhões de carros, fechava-se o livro a uma lenda. O Capri foi um fenómeno social e atraiu um exército leal de fãs durante a sua vida – foi a introdução ao mundo dos Coupe para muitos jovens – e não nos vamos esquecer da sua lucrativa carreira no mundo televisivo. A ironia é que, em 1989, a Opel lançou o Calibra – verdadeiramente um Capri dos tempos modernos – e agitou bem o público.

Curiosamente, tal só foi feito quando a Ford não tinha resposta…

O melhor Capri de sempre? O 280, conhecido como Brooklands, tinha jantes de 15 polegadas e bancos da Recaro.

 

 

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