Há 70 anos: O primeiro Land Rover

11 de Março de 1948, uma data relembrada por todos os apreciadores Land Rover em todo o mundo como a génese do mais capaz veículo ligeiro de todos os tempos, data em que o primeiro Land Rover saiu de Solihull e começou uma das mais importantes revoluções no mundo automóvel.

 

O início

 

Após a Segunda Guerra Mundial, durante a qual havia perdido a sua fábrica de Coventry, a Meteor Works, a Rover mudou a sua produção para uma grande fábrica vazia em Solihull, Birmingham. Este espaço necessitava de ser rentabilizado de forma a iniciar a recuperação da empresa. Spencer Wilks e o seu irmão, Maurice Wilks, desenharam um plano ambicioso de produção de veículos familiares de elevada qualidade, de forma a recuperar aquele que era o mercado da Rover durante a década de 30. Este plano ambicioso seria chumbado pelo governo, devido ao consumo de matérias-primas raras no pós-Guerra. Desta forma, o plano teria de passar por um modelo fácil de construir, barato e, dada a escassez de aço, que pudesse ser construído em alumínio.

Corria o verão de 1947 quando, durante as suas férias em Red Wharf Bay, em Anglesey, Maurice Wilks idealizou o Land Rover. Wilks usava um antigo Jeep do exército Americano na sua quinta de Anglesey, mas que já mostrava sinais de cansaço. Dada a ausência de um modelo semelhante no mercado a única alternativa seria comprar outro, mas Maurice reconhecia que diversos aspectos poderiam ser melhorados. Como engenheiro-chefe da Rover, Maurice Wilks encarou o desafio com seriedade e chegaria à ideia de base do Land Rover: um veículo 4×4 que fosse disponibilizado ao público civil.

Esta ideia foi prontamente transmitida aos seus principais colaboradores Robert Boyle, Tom Barton, Olaf Poppe e Gordon Bashford. Wilks havia definido como objectivos principais para o novo veículo a capacidade de transportar ovelhas, puxar pequenos reboques e equipamento e capaz de carregar fardos de palha, bem como ter tomadas de força para uma grande variedade de acessórios como guinchos ou bombas de água.

À época as fases de testes eram rápidas e logo os protótipos foram melhorados para a produção. A 11 de Março de 1948 saía o primeiro Land Rover final das linhas de Solihull, o HUE 166, conhecido pelos entusiastas de todo o mundo por “Huey”. Este Land Rover, com o chassis LR1, foi o primeiro de um conjunto de 48 protótipos em versão final de testes pré-produção.

O Land Rover foi oficialmente apresentado ao público a 30 de Abril de 1948 no Salão Automóvel de Amesterdão com um preço base de 450 libras (cerca de 17.350€ nos dias de hoje) mas as entregas só começaram em Julho. Uma particularidade dos Land Rover desta época era a sua cor. As primeiras unidades, como o HUE 166, eram pintados num cinza-esverdeado, passando logo a “Cockpit Green”, tinta excedente do fabrico do avião Avro Anson.

O Land Rover foi um sucesso e logo assumiu um papel essencial na frota militar inglesa, tendo sido produzidas cerca de 218.000 unidades em Abril de 1958, quando o venerável Land Rover viu a reforma e a substituição pelo melhorado Série II. Para um modelo originalmente pensado para uma curta produção de auxílio à recuperação da Rover, o Land Rover superou todas as expectativas.

 

A evolução e consolidação

 

Em 1958 já o Land Rover estava de pedra e cal no mercado e a concorrência começava a aparecer, como o Austin Gipsy e 10 anos depois da apresentação do Série I era apresentado o Série II em Abril desse ano, no Salão de Amesterdão. Desta vez o Land Rover era um produto mais maduro, já pensado no ponto de vista estético pelo génio David Bache, mas pouco mais havia mudado, além de pormenores no interior. O novo modelo era agora mais acolhedor, permitindo um posicionamento ligeiramente mais elevado no mercado, também reflectido no preço, agora 640£. O Série II continuou o sucesso de vendas e foi sendo actualizado, sofrendo uma remodelação mais profunda em 1962 com o aparecimento do Série IIA, que incluía novos motores e outras alterações. Durante os 13 anos de produção do Série II alcançou mais de 530.000 unidades, sendo que o total da produção da marca já havia alcançado as 750.000 unidades, altura em que entrou em cena o Série III, em 1971.

 

A expansão

 

 

A ideia de um Land Rover mais refinado acompanhou toda a produção do veículo desde o início mas apenas se concretizou em 1970. A primeira tentativa de fazer a ligação entre o P4 e o Land Rover pensada por Wilks era uma carrinha de tracção traseira denominada “Road Rover” mas que seria abandonada em 1958 por não se justificar a produção de um modelo que pouco tinha a oferecer a mais que a gama actual, e os recursos precisavam de ser canalizados para o novo P6 já em desenvolvimento.

Apesar deste abandono, a ideia de um Land Rover mais luxuoso nunca abandonou a mente dos engenheiros da marca e logo após o lançamento do P6 Charles Spencer King e Gordon Bashford debruçaram-se mais uma vez sobre este tema. O novo veículo teria de ser mais rápido, maior e mais confortável que o Land Rover existente, e deveria ser capaz de transportar uma caravana, um barco ou um transportador de cavalos. Em 1966 a situação da empresa tornou-se delicada devido à situação geopolítica do momento, e era urgente um novo modelo que pudesse reverter a situação.

Assim sendo, os trabalhos no novo modelo ganharam ímpeto. Foi decidido que o novo veículo teria molas helicoidais para permitir mais conforto e melhor comportamento em estrada e a escolha do motor recaiu no recém-chegado Rover 3.5 V8 (ex-Buick 215). Por esta altura o projecto era conhecido como “100-inch Station Wagon”. Em Junho de 1970 o novo modelo seria mostrado ao público e ostentava o nome “Range Rover”. Após um início lento das vendas, o Range Rover ganhou um elevado estatuto e as vendas começaram a reflectir esta percepção.

O Range Rover continuou a ganhar ímpeto durante os anos 70 e 80, subindo gradualmente o seu posicionamento e preço até chegar ao segmento dos automóveis de luxo no final da década de 80, onde permaneceu até aos dias de hoje após 4 gerações.

 

A tentativa de recuperar o mercado

 

 

Apesar de o novo modelo gozar de um sucesso invejável, o mesmo não poderia ser dito daquele que era o pilar da marca, o Land Rover. O Série III já bastante envelhecido enfrentava uma competição fortíssima dos modelos japoneses e havia perdido uma enorme quota de mercado em zonas-chave como África ou Austrália.

O Série III é finalmente substituído em 1984 pelos novos 90 e 110 (Defender a partir de 1990), um modelo que embora esteticamente muito semelhante ao seu antecessor, apresentava soluções mecânicas oriundas do seu irmão mais luxuoso, como a suspensão de molas helicoidais ou a tracção integral permanente. Os motores foram também actualizados logo em 1985, com o alargamento do 2.25 para 2500cc. Apesar destas alterações, as vendas continuavam a cair, chegando em 1987 às 20.686 unidades vendidas. A administração começava a aperceber-se que o modelo básico era cada vez mais um modelo de nicho e o Range Rover estava já em patamares demasiado elevados para a classe média. Entra em cena um terceiro modelo.

 

Atacar as famílias activas

 

 

O mercado intermédio do segmento dos todo-o-terreno, ao contrário do que se sucedera com o Land Rover e o Range Rover, já existia quando a marca começou a trabalhar num produto para o ocupar. Os japoneses dominavam um mercado em forte crescimento durante a década de 80 e a Land Rover sentia a necessidade de aproveitar este “boom” de vendas. Com recursos muito limitados, um terceiro membro da família tomava forma com base no Range Rover em 1986. Em Setembro de 1989 era apresentado em Frankfurt o novo modelo, o Discovery. Posicionado exactamente entre o Range Rover e o Defender, o Discovery podia ser descrito como um Range Rover despido de luxos com possibilidade de albergar 7 passageiros.

Originalmente apenas disponível na versão de 3 portas, para evitar sobreposição com o Range Rover, logo se percebeu que era necessária uma versão de 5 portas em 1991. O Discovery I foi melhorado em 1994 com a introdução de um novo Diesel e novas caixas de velocidades e permaneceu um dos veículos de lazer mais vendidos.

 

O baby-Land

 

 

Durante a década de 90 o mercado tornou-se ávido de pequenos SUV. A marca começou a trabalhar num quarto modelo logo no início da década, como pode ser observado no protótipo “Pathfinder” de 1993, onde claramente se observa a origem do Freelander: um pequeno 4×4 com versões de 3 portas descapotáveis e 5 portas de capota rígida. O projecto CB40 tomava forma e logo se havia definido que seria o primeiro Land Rover a usar um chassis monocoque e Gerry McGovern definiria o estilo.

O novo modelo, apresentado em 1997, era o mais evoluído Land Rover de sempre e apresentava tecnologias pioneiras como o Hill Descent Control, bem como suspensão totalmente independente. Apesar de amplamente criticado pelos entusiastas da marca, o Freelander revelava excelentes características de todo-o-terreno para o segmento e tornou-se no SUV mais vendido na Europa. MAs este não viria a ser o único sucesso da Land Rover no mercado dos pequenos jipes…

 

Entra a Tata, muda a sorte

 

 

Em 2008 a Ford vendeu a Land Rover e a Jaguar ao grupo Tata e com este negócio a atitude da marca inverteu totalmente, a começar pelo desenvolvimento do protótipo LRX apresentado em 2008 em Detroit. Inicialmente cancelado pela Ford, a Tata encontrou um enorme potencial no conceito e ordenou o seu desenvolvimento. Em 2011 apareceria o Evoque, o mais radical Land Rover de sempre com uma estética totalmente colada ao protótipo original. O arrebatador desenho de Gerry McGovern e a competência como veículo familiar fizeram do Evoque o mais vendido Land Rover de sempre, tendo alcançado nos primeiros 5 anos mais de 600.000 unidades.

 

O presente

 

 

Actualmente a Land Rover tem a sua gama dividida em duas: a gama Discovery, com os Discovery e Discovery Sport, mais orientada para a utilidade familiar e a gama Range Rover, com o Evoque, Velar, Sport e Range Rover, numa vertente mais luxuosa.

Em 2017 a Land Rover conseguiu vender mais de 442.000 unidades naquele que foi o seu melhor ano de sempre.

Para 2018, ano do 70º aniversário da oval, é esperado o regresso do Defender, o mais aguardado evento desde o fim da produção do Defender no final de 2015 e que representará o regresso da marca às suas origens, pelo menos adaptadas ao século XXI.

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