Há 50 anos: Jaguar XJ

A 26 de Setembro de 1968 a história da Jaguar mudaria para sempre. Foi neste dia há 50 anos que foi apresentado aquele que viria a ser o topo-de-gama da marca até aos dias de hoje, o XJ. A história desta família de modelos é complexa e cheia de altos e baixos, tal como a história do seu fabricante. Hoje celebramos aquele que é unanimemente considerado como um dos melhores carros de todos os tempos.

 

XJ6/12: a génese

No início dos anos 60 a Jaguar vivia uma derradeira era dourada. O E-Type arrebatava o mundo como nenhum outro automóvel até então e o saloon médio MkII expandia o mercado da Jaguar além-fronteiras. No entanto, em 1963 a marca viria a sofrer um golpe duro, com o lançamento dos novos Rover 2000 (P6) e Triumph 2000 (Innsbruck), que não só eram mais competentes que os MkII de Coventry como eram consideravelmente mais baratos. Também a concorrência internacional não dava tréguas, especialmente a Mercedes-Benz.

Seguiu-se a estagnação e a tentativa desesperada de manter os MkII competitivos no mercado, com o lançamento do modificado S-Type. Também o MkX, o porta-estandarte da Jaguar, tinha um desempenho insatisfatório no mercado, vendendo inclusivamente menos que os seus antecessores. A situação era agora delicada. Uma gama envelhecida e confusa com demasiadas versões não conseguiria manter a marca por muito mais tempo.

A administração da Jaguar cedo decidiu que um novo modelo era necessário e este teria a responsabilidade de substituir toda a gama média da Jaguar e Daimler. Curiosamente o novo Jaguar, inicialmente chamado de XJ4 (eXperimental Jaguar nº 4) viria também a substituir o MkX como topo-de-gama.

O XJ foi recebido no mercado com estrondo. O desenho de Sir William Lyons, presidente, fundador e designer da marca não deixou ninguém indiferente e muito menos a excelência do chassis. Mas as características principais do XJ eram mesmo o conforto e refinamento imbatíveis por um preço de apenas 60% dos seus rivais continentais.

No verão de 1969 a Autocar comentava: “O melhor que existe… Se a Jaguar duplicasse o preço do XJ6 e o vendesse como o melhor carro do mundo, não seríamos contra… Como está no momento, dinamicamente, não tem igual, independentemente do preço, o que justifica os prazos de entrega de doze meses em concessionários… Definimo-lo como um novo líder, um tremendo avanço garantido para colocá-lo à frente por vários anos, pelo menos.”

A imprensa era unânime. O XJ era aclamado mundialmente e muitos consideravam-no como o melhor carro do mundo, mas o melhor estava ainda para vir: Em 1972 a marca anunciava o XJ12 e o gémeo Daimler Double-Six, que representavam em conjunto o pináculo da gama Jaguar.

No ano seguinte aparecia o XJ Series II, a 13 de Setembro, com algumas alterações estéticas como a grelha mais pequena, uma necessidade para acomodar os novos pára-choques obrigatórios para o mercado americano. Também na mesma ocasião foi apresentado o XJC, o deslumbrante Coupé de curta carreira. Por esta altura já estava em desenvolvimento o sucessor XJ40.

Até ao final da década de 70 poucas foram as novidades no XJ além de em Maio de 1975 o V12  ter recebido injecção Bosch-Lucas.

Em Março de 1979 surge o XJ Series III, um novo facelift desta vez pela mão de Pininfarina, com um perfil lateral redesenhado, bem como injecção pela primeira vez no envelhecido XK, na versão de 4.2 litros.

Em 1986 o XJ6 é retirado de serviço para dar lugar ao XJ40, mas o XJ12 ainda seria a proposta no catálogo para quem queria um XJ com motor V12 por mais 6 anos…

 

XJ40: a ambição

Substituir aquele que era para muitos o melhor carro do mundo já seria por si só uma tarefa difícil. Se a isso se juntar a situação que a Jaguar vivia nos anos 70 e 80, a sucessão do XJ6/12 era um projecto dantesco.

O problema da Jaguar não era, infelizmente, sequer de culpa própria. Durante muitos dos anos em que decorria o projecto do sucessor do XJ, a Jaguar pertencia à JRT (Jaguar-Rover-Triumph), a lucrativa divisão “premium” da British Leyland, que era drenada de fundos para alimentar o poço sem fundo que era a Austin-Morris. Para piorar, uma força de trabalho desmotivada e militante manchava irreversivelmente a reputação de qualidade que, a bem da verdade, nunca havia sido excelente.

Como tal, o sucessor do XJ demorou 14 longos anos a chegar ao mercado desde o início do seu desenvolvimento. A situação era de tal modo absurda que em 1979 (7 anos após o início do projecto) ainda o desenho da carroçaria não estava definido. Em 1980 a Jaguar ganhava independência dentro do grupo e o seu novo chefe, John Egan, assinou de imediato o ok para a produção.

Além de estética e suspensão novas, o novo XJ teria também um novo motor, denominado AJ6, um seis cilindros em linha construído inteiramente em alumínio que seria estreado no XJ-S em 1983.

Finalmente, no NEC Motor Show de 1986, o novo Jaguar XJ aparecia em público. Era o primeiro Jaguar novo em 11 anos, desde o lançamento do XJ-S.

O XJ40 foi bem recebido pela crítica e considerado uma proposta muito competente no segmento de luxo. Infelizmente, tal como aconteceu com demasiados produtos da era British Leyland, desde cedo começaram a surgir os problemas, apesar de a marca afirmar ter investido muitos recursos na melhoria da qualidade.

A marca foi gradualmente resolvendo os problemas que afectavam o XJ40, nomeadamente problemas de direcção e electrónica das primeiras unidades mas o estrago estava feito. Mesmo após as melhorias da qualidade a reputação do XJ40 estava irremediavelmente no charco.

Mas porquê a demora do prometido XJ12 que só chegou em 1993? Política. A Jaguar era uma empresa orgulhosa do seu passado e dos seus feitos. Talvez até demasiado. Reinava pelos seus directores e engenheiros uma sensação de superioridade em relação a outras marcas. Como à época Rover e Jaguar integravam o mesmo grupo, foi sugerido que a Jaguar usasse o excelente e testado Rover V8. A ideia caiu que nem uma bomba nos escritórios da Jaguar e os engenheiros prontamente afirmaram que o compartimento do motor era demasiado estreito para acomodar motores em V. O mito espalhou-se e é ainda hoje propagado pela literatura mas a verdade é que nunca sequer houve provas de que o motor não cabia! Em 2003 Jim Randle afirmou ter dito à administração da BL que o motor não cabia, mas tanto quanto sabia até era provável que coubesse. A verdade é que nunca ninguém confirmou a veracidade da afirmação de Randle, apenas para proteger o pedigree da Jaguar. Mas se o V8 provavelmente até coubesse, não era o caso do V12 e como tal toda a carroçaria teve de ser alterada para acomodar o enorme V12, agora com 6 litros de capacidade.

 

XJ X300: o salto qualitativo

Em Setembro de 1994 aparecia a terceira geração do Jaguar XJ, o X300, já sob a batuta da Ford. Na verdade o X300 era apenas um XJ40 com secção frontal e traseira retirada de um projecto cancelado, o XJ90, e, como tal, a secção central era a mesma. Na verdade o X300 apenas um restyle do XJ40, mas as aparências iludiam.

O X300 foi o culminar do investimento de centenas de milhões de libras na fábrica da Jaguar de forma a elevar a qualidade. Finalmente os produtos saídos de Browns Lane tinham a qualidade necessária para competir a nível mundial.

A acompanhar o salto gigantesco no capítulo da construção estava a estética “retro” concedida por Geoff Lawson que voltava 26 anos atrás ao original de William Lyons e que viria a definir o aspecto do XJ até ao final de 2009.

No capítulo dos motores, o renovado AJ6, agora denominado AJ16, movia as versões de 6 cilindros, enquanto o V12 equipava as versões de topo pela última vez, desta vez logo desde o início. Com esta geração chegou também a segunda geração do mítico XJR, agora sobrealimentado. O AJ16 era auxiliado por um compressor Eaton M90 que tornava o 4 litros capaz de 326cv.

Mas os motores estavam longe de ser definitivos e em 1997 acontece mais uma revolução…

 

XJ X308: o V8 chega ao XJ

Na verdade o X308 é pouco mais que um X300 com motor V8. Exteriormente as diferenças são de pormenor, no interior o tema mantém-se, se bem que redesenhado, afastando-o do XJ40 mas a grande revolução estava debaixo do capot.

Até 1997 o motor V8 era inaudito na Jaguar. Certo que os Daimler 250 dos anos 60 baseados no Mk2 com o excelente V8 de Edward Turner herdado da Daimler mostraram que o V8 era uma configuração muito válida para um carro de luxo mas a Jaguar não partilhava da ideia. Na mente orgulhosa da casa de Coventry, os V8 eram vistos como pouco refinados e inferiores aos seis em linha ou V12. Certo que houve estudos de motores V8 para o primeiro XJ, baseados no V12, mas os resultados foram pouco satisfatórios.

Pela primeira vez em 1997 um XJ teve um motor V8, e que senhor motor. O AJ-V8 que nos acompanha até aos dias de hoje deu uma outra alma ao XJ, aqui com versões 3.2, 4.0 e 4.0 com compressor, no XJR e logo foi nomeado um dos melhores motores do mundo. Finalmente a Jaguar tinha um motor verdadeiramente avançado. Só faltava o resto…

 

XJ X350: o salto tecnológico

Em 2003 aparece a quinta geração do XJ, aparentemente igual à anterior, mas a evolução tecnológica foi profunda. O X350 escondia debaixo da estética conservadora e tradicional um chassis inteiramente em alumínio rebitado, o que lhe concedia uma leveza impressionante de apenas 1539kg na versão mais leve.

A acompanhar esta leveza estava a nova suspensão pneumática com esquema multilink que proporcionava uma condução muito dinâmica ao XJ. Também os motores ajudavam. O AJ-V8 era agora oferecido em versões 3.5 e 4.2 com ou sem compressor. A base da gama a gasolina era agora o AJ-V6 3.0 que se estreou no S-Type 4 anos antes. Ainda no capítulo dos motores, e pela primeira vez na história do XJ, havia agora uma proposta Diesel. O fantástico 2.7 V6 biturbo de origem Ford/PSA, um motor de suavidade impressionante e que conferia ao XJ uma eficiência impressionante.

Infelizmente os avanços tecnológicos não eram suficientes para travar o desinteresse do mercado pelo XJ e as vendas continuavam a afundar, num mercado cada vez mais virado para o futuro.

 

XJ X351: a revolução do design

O XJ X351 foi mostrado ao público no final de 2009 e desde então tem sido o portador da sigla XJ. O primeiro XJ inteiramente desenhado por Ian Callum rompia intencionalmente com o passado. As linhas eram polémicas para os tradicionalistas mas finalmente o XJ incorporava o espírito inovador de Sir William Lyons.

O X351 era uma evolução do revolucionário X350 nos aspectos técnicos, equipado com evoluções das mecânicas que moviam o modelo anterior. O AJ-V8 era agora oferecido na versão de 5 litros com vários níveis de potência e o Ford/PSA Lions V6 Diesel apresentava-se com 3 litros de capacidade e 275 cavalos de potência.

Mais tarde aparecia um novo V6, baseado no AJ-V8 denominado AJ126 com compressor e também, pela primeira vez num XJ, um motor de 4 cilindros a gasolina 2.0 de origem Ford com 240cv. Em 2015 era oferecida pela primeira vez a opção de tracção integral.

O actual XJ está já em fim de vida e presume-se que seja o último de uma geração. Com o mercado a mudar as tendências e os números de vendas cada vez mais baixos, o XJ deverá seguir o caminho eléctrico que a marca já ataca.

 

Conclusão

O Jaguar XJ definiu nos últimos 50 anos o padrão do requinte e dinamismo do segmento de luxo, o Jaguar por excelência e o estatuto em volta do felino. Embora nem sempre um produto dos mais elevados padrões de qualidade e engenharia, o XJ conseguiu manter intocável o seu estatuto de veículo de luxo. Ao longo das várias gerações o XJ “personificou” a história da Jaguar. Não esperamos que os próximos 50 anos sejam diferentes nesse aspecto.

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